You need to upgrade your Flash Player This is replaced by the Flash content. Place your alternate content here and users without the Flash plugin or with Javascript turned off will see this. Content here allows you to leave out noscript tags. Include a link to bypass the detection if you wish.

ARTIGOS

 

 
 Nylse Helena Silva Cunha
  
Talvez tenhamos parado poucas vezes para observar crianças brincando;
mas, se o fizermos, vamos aprender muito sobre elas; não somente
sobre elas, mas principalmente sobre os caminhos que levam o ser humano
à construção da sua inteligência, do seu conhecimento e...da sua felicidade.
Quando a criança brinca (e o adulto não atrapalha) muitas coisas sérias
acontecem.
 
Quando ela mergulha em sua atividade lúdica, organiza-se todo o seu ser em função da sua ação.

O interesse provoca o fenômeno; reúnem-se potencialidades num exercício mágico e prazeroso.

E quanto mais a criança mergulhar mais estará exercitando sua capacidade de concentrar a atenção, de descobrir, de criar e especialmente, de permanecer em atividade. Permeando tudo isto está a aprendizagem do fazer pelo sentir e não para obter um determinado resultado, para possuir alguma coisa.

A criança estará aprendendo a engajar-se, seriamente, gratuitamente, pela atividade em si.

Por esta razão este momento é um momento sagrado: estão sendo aí cultivadas qualidades raras e fundamentais.

A sabedoria, que deveria iluminar os processos educacionais, perdeu-se quando desrespeitou a importância deste momento, o momento em que a criança brinca, tranqüilamente, exercendo seu direito e seu dever de crescer harmoniosamente desenvolvendo o potencial que Deus lhe deu.

A escolarização precoce deteriorou a infância a tal ponto que hoje temos rigorosos exames de seleção para admissão à escola. Isto é terrível: já na pré-escola o processo está totalmente pervertido. É como se colocássemos todas aquelas lindas cabecinhas numa máquina de moer que as tornarão todas igualmente quadradinhas, prontas para o consumo ou pelo menos para consumir.

A convivência com outras crianças pode ser muito enriquecedora, mas isso somente acontecer* se houver espaço para as características individuais desabrocharem, caso contrário, será massificante.

As formas de convivência democrática, que estimulam a autonomia são fontes de crescimento.

Entretanto, o ser humano não pode ser produto de uma didática que estará logicamente baseada em uma ideologia. Por melhor que seja ela, a Educação não pode ser uma arte, no sentido em que o educador não tem direito de usar a criança como matéria-prima para a realização da sua obra. A verdadeira obra de arte do educador tem que ser a sua própria vida, a sua própria pessoa, pois a expressão de sua forma de ser será fundamental para o processo educacional.

Seu papel está mais próximo da arte do jardineiro. O jardineiro não vai pretender que todas as flores sejam rosas, mas irá sim aprender qual a espécie da semente que tem em mãos para poder criar as melhores condições para que ela floresça. Nasce a planta e cresce o jardineiro que aprendeu mais sobre ela.

A educação é um processo bilateral que acontece na interação com as pessoas e com o ambiente em que vivem.

Ser educador é ter uma determinada postura existencial, é uma maneira de expressar-se como ser.

Segundo Piaget, a rotina não é epistemologia, a graduação dos passos não deixa espaço para o desafio representado pela dúvida, não permite descoberta. É a situação o problema, o inusitado, que desafia o pensamento e propicia a construção do conhecimento.

A descoberta traz o conhecimento de forma auto-possuída, o prazer de haver aprendido sozinha, eleva o auto-conceito da criança tornando-a mais apta a aprender porque passa a confiar mais em si.

As situações muito organizadas não permitem divergências, o que é prejudicial, porque os conflitos são propulsores de conhecimento; não devem ser sufocados, mas elaborados, trabalhados de forma a aumentar o nível de conscientização e proporcionar a formação de uma escala de valores morais que são desta maneira, internalizados através de uma vivência concreta.

O desenvolvimento s* acontece quando existe funcionamento no nível mais alto das capacidades individuais.

A aceitação do padrão expresso pelo currículo é fundamental

para que o aluno obtenha sucesso na escola e, se não tiver sucesso a criança será punida pela família e rejeitada na sociedade, razões suficientemente fortes para que ela se violente no esforço de atender as expectativas daqueles de quem depende.

As solicitações que a criança recebe são constantes ameaças e, no esforço para atender as expectativas e livrar-se da pressão, a criança se perde como ser genuíno; que tem preferências, características e potencialidades que, como sementes, esperavam oportunidades para desabrochar, mas acabam apodrecendo sufocadas pelas exigências dos modelos a serem alcançados.

Neste processo acontece a deteriorização dos valores morais, deturpados pela ética produtivista e organizados dentro de uma perspectiva de adequação à proposta de obtenção dos melhores resultados.

A felicidade do ser humano, as possibilidades de melhor usufruir e manifestar o potencial que Deus lhe deu, não são cogitadas.

Todo ser humano precisa de momentos e de canais de interiorização para encontrar-se, para harmonizar suas energias e poder alcançar seu equilíbrio.

Para contrapor-se à solicitação cada vez maior da nossa sociedade, só o enriquecimento da vida interior poderá segurar o equilíbrio e a vida interior da criança é centrada no seu brincar.

É brincando que ela expressa sentimento e emoções que ela mesma desconhece.

É brincando que ela experimenta suas habilidades.

É brincando que manifesta suas potencialidades e assim, através de experiências das mais variadas, vai aprendendo a viver, libertando-se de seus medos e amadurecendo de dentro para fora, devagarzinho e com segurança que só as coisas naturais e verdadeiras oferecem.

Este processo tão lindo, tão mágico tem seu ritmo próprio. Acelerá-lo é prejudicá-lo. Impedi-lo é uma violência de consequências imprevisíveis.

Pela sua condição de ser em desenvolvimento, toda criança tem direito a viver sua infância como a infância deve ser

vivida, com respeito a seu próprio ritmo de desenvolvimento e às suas necessidades lúdicas e afetivas. O adulto que se preocupa com seu próprio futuro deverá zelar pela qualidade de vida que está sendo oferecida às crianças, pois não sabemos que pessoa poderá vir a ser as crianças a quem a infância foi roubada, seja por miséria, seja pelo stress provocado por exigências ambiciosas.

Já existe alguma preocupação com a alimentação de nossas crianças carentes, mas eu me preocupo com a alimentação de suas almas, de sua sensibilidade.

Certamente, a desesperada luta pela sobrevivência que atinge tantas crianças em nosso país não é a melhor maneira de cultivar sua sensibilidade e seu equilíbrio emocional. Amar também se aprende e, certamente, não é no desamor.

O brinquedo e as brincadeiras são fontes de interação lúdica e afetiva, além de serem estímulo à aprendizagem.

As Brinquedotecas surgiram para resgatar a infância e proporcionar à criança o acesso ao mundo mágico do brincar. Elas representam o reconhecimento do direito de brincar e a valorização do brinquedo como fonte de desenvolvimento e equilíbrio.

Seu valor como proposta alternativa para complementar, ou até mesmo neutralizar os efeitos da escolarização precoce são indiscutíveis.

Na Europa, no Canadá, nos Estados Unidos as Brinquedotecas, Ludotecas ou Bibliotecas de brinquedos são muito comuns.

* importante ressaltar que não são apenas um lugar que tem muitos brinquedos, mas uma instituição baseada numa proposta educacional, um lugar onde todo o "Know how" * voltado para a criação de uma atmosfera muito especial, onde o mágico, o lúdico, a criatividade e o afeto tem prioridade.

Para trabalhar numa brinquedoteca uma formação especial é necessária, pois não se pode transformar a criança em platéia do nosso espetáculo, mas temos que favorecer as condições para que ela viva integralmente sua própria história.

Finalizando, a inteligência se desenvolve através de situações problema. São os desafios encontrados na vivência das diferentes experiências que vão provocar a construção

Conhecimento da criança. Sentindo, percebendo, pensando a criança descobre o mundo e pode ser atraída pelos seus encantos e mistérios. Para encontrar sua verdadeira vocação precisa saber do que gosta para então, com o interesse de um cientista, com a paixão de um artista, poder descobrir, aprender e atuar.

Se suas características individuais forem respeitadas, passará do brincar para o trabalhar sem perceber, pois continuará sentindo o mesmo prazer na atividade.

O homem feliz é o que gosta do que faz. Brincar? Trabalhar? São formas de expressão e a criança que hoje brinca bastante aprende a engajar-se por prazer e amanhã manifestará este sentimento engajando-se como cidadão participante.

 
 
 
Foi sancionada pelo Presidente da República a Lei nº 11.104/2005, de autoria da deputada federeal LUIZA ERUNDINA. Essa lei representa valiosa conquista de nossas crianças que, quando internadas em unidades de saúde, públicas ou privadas, terão uma brinquedoteca, contribuindo assim para diminuir o sofrimento de um tratamento hospitalar, com resultados comprovados de ajuda para o restabelecimento da saúde da criança. 
  
 
Lei nº 11.104, de 21 de março de 2005
 

Dispõe sobre a obrigatoriedade de instalação de brinquedotecas nas unidades

de saúde que ofereçam atendimento pediátrico em regime de internação.
 

O Presidente da República Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu

sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º Os hospitais que ofereçam atendimento pediátrico contarão,

obrigatoriamente, com brinquedotecas nas suas dependências.

Parágrafo único. O disposto no caput deste artigo aplica-se a qualquer unidade

de saúde que ofereça atendimento pediátrico em regime de internação.

Art. 2º Considera-se brinquedoteca, para os efeitos desta Lei, o espaço provido

de brinquedos e jogos educativos, destinado a estimular as crianças e seus

acompanhantes a brincar.

Art. 3º A inobservância do disposto no art. 1º desta Lei configura infração à

legislação sanitária federal e sujeita seus infratores às penalidades previstas no

inciso II do art. 10 da Lei nº 6.437, de 20 de agosto de 1977.

obs.dji.grau.1: Art. 10, II, Infrações e Penalidades - Infrações à Legislação

Sanitária Federal e as Sanções Respectivas - L-006.437-1977

Art. 4º Esta Lei entra em vigor 180 (cento e oitenta) dias após a data de sua

publicação

Brasília, 21 de março de 2005; 184º da Independência e 117º da República.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

Tarso Genro

Humberto Sérgio Costa Lima

D.O.U. de 22.3.2005.

 
  
  
 Qual castelo mais lindo?

Celso Antunes



Pense uma professora e diante dela, envolvida pelo encantamento, uma criança de sete ou oito anos. A professora relata:

Era uma vez um lindo castelo. Situado em uma colina, tinha à sua frente sinuoso caminho de troncos e flores que serpenteava em meio a um gramado coberto de um verde brilhante. Esse caminho terminava em um lago de água muito azuis, que refletiam o brilho do sol, na tarde que caia!

Pense, agora, uma professora e diante dela, envolvido por igual encantamento a mesma criança com seus sete ou oito anos, ouvindo o desafio:

Era uma vez um lindo castelo. Porquê era lindo esse castelo?...

Em superficial exame, acredita-se que não existem diferenças essenciais entre as educadoras. A primeira é apenas mais ampla, detalhista, completa. A segunda mais restrita em seu verbo, mais ousada em seu desafio. São igualmente, entretanto, duas educadoras.

Não são. Apenas uma é.

A segunda, a que trocou os detalhes de sua história pelo imaginário, a que ousou ensinar a pensar, a que desprezando a arrogância autoritária do ponto de exclamação, preferiu a sinuosa ousadia da sensualidade do ponto de interrogação. Para a criança que ouve a primeira professora esse castelo não é lindo; apenas assim sua mestra o vê e porque assim o deseja, assim o impõe. O saber que sua história conta chega pronto, definitivo, arrogante, exclusivista. Talvez, a beleza desse castelo não seja nem mesmo da professora que o relata, mas do autor que lhe impondo, a seus pensamentos a subjugou. Essa criança é apenas restrito ouvinte, jamais protagonista da história; seu cérebro recebe uma ordem, que ainda que passada com carinho, para nada mais serve que o ofício da subordinação.

Para a criança da segunda educadora, a beleza do castelo não chega pronta, urge assim construí-la. Por que é lindo o castelo? Pelas fadas que abriga? Pelas anjos que o encantam? Pelos mágicos que o ocupam? Não importa, o saber que o desafio propõe por não chegar frio e exclusivista, envolve o pensamento, acorda a memória, aguça a criatividade. O saber da professora apenas insinuou uma busca e a ousadia com que fez uso do ponto de interrogação, a fez construtora de um castelo, este sim, efetivamente lindo, sedutor, admirável.

Para a primeira professora, a do ponto de exclamação, o aluno é criatura estática, ser robotizado que outra função não tem que a de apensa ouvir, para a segunda, o aluno é criatura intuitiva, inteligente e, por isso, requer interação. Para a primeira o saber é informação que se acumula e assim com o tempo se perde, para a segunda o saber por ser experenciado transforma-se em degrau para mais outros saberes, para a primeira a avaliação é mecânica e seu aluno somente saberá de castelos se puder memorizar a beleza que não sente, das palavras que decorou, para a segunda a avaliação é subjetiva, se insinua através de múltiplas linguagens e se mais crianças a ouvir, em cada uma delas um sonho diferente esse lindo castelo abrigará.

Na visão externa, as duas professoras contando sua história parecem iguais, na visão mais próxima, uma conta a outra encanta, a primeira impõe a segunda propõe, uma faz de seu aluno instrumento cativo de seu pensamento, a outra o liberta para que, autônomo, navegue pela paixão de seus sonhos.

Repare que por coincidência ou não, o ponto de exclamação autoritário assemelha-se a punhal, com a conta de sangue a conferir o assassinato que aos pensamentos impõe.

(texto retirado do site www.celsoantunes.com.br)